Era aquilo ou nada, pensava eu.
O dia não passava e as noites eram curtas demais pra qualquer devaneio tolo.
Eu que já não raciocínava decentemente, ficava entre o dia e a noite, aguentando a morte calada do meu ser.
Foi então que pensei em mudar.
Procurar um lugar novo, conviver com outras pessoas, me embrenhar naquela cidade que me parecia tão grande e desconhecida.Talvez quem sabe cortar o cabelo, colocar um piercing.Mas nenhuma idéia adiantaria de qualquer forma.
A saída pra essas coisas, é mesmo enfrentá-las.
Me joguei na noite.
Em busca de bares vazios e homens sozinhos.
Topei com um cara, sentado num balcão tomando um whisk barato.
Era tudo tão clichê que pensei em me jogar na frente de um carro, assim que saísse dali, mas enquanto eu divagava sobre as possibilidades de morte, ele disse:
"- Ei, tudo bem?"
A voz dele era suficientemente rouca pra me tirar do sério.
Respondi friamente:
"- Tudo"
Minha cara de poucos amigos não devia alimentar mais nenhum assunto, pensei frívola, enquanto solicitava ao garçom uma cerveja gelada. Mas ele seguiu:
" Tem dias que a gente levanta da cama com uma vontade de sumir.."
Eu respondi em tom de brincadeira:
"Ou com vontade de sumir com alguém"
Ele respondeu sorrindo:
" É.."
Eu, sem perceber soltei a pérola:
" Pior é acordar sem ninguém na cama"
Ele em silêncio, fez que sim com a cabeça e nada disse.
Eu fiquei exatos três segundos, me torturando e confabulando coisas pra consertar aquela besteira, mas ele finalmente falou:
" Bom, por outro lado isso acaba com o problema de ter que sumir com alguém, não é mesmo?"
Fiquei aliviada por não ter que consertar a cagada, mas achei que aquele papo embora intrigante estava muito vazio,quando fui me despedir ele disse:
"Espera, tem uma coisa que eu quero te dar.."
Eu exitei um pouco, mas ele pegou minha mão, e entregou um colar com uma espécie de moeda furada.
Eu ironizei
" Numa noite dessas, você ainda me entrega uma moeda furada?"
Ele me olhando sério, disse apenas que era pra eu usá-la quando estivesse mal ou chateada.Pensei:
" Com tanta coisa acontecendo, porque não usar uma moeda furada no pescoço"
Agradeci e sai de mansinho em busca de um lugar mais animado, e caras menos misteriosos.
Caminhei lentamente em direção a rua, acendendo o último cigarro da carteira.
Quando estava no final da rua, senti uma mão agarrar meu braço e me puxar.
Era o cara do bar, de novo.
Não tive tempo sequer de perguntá-lo.
Quando olhei sua boca já estava na direção da minha.
Uma sensação estranha circundava meu pescoço.
Era como se estivesse tomando uma dose cavalar de energia instantânea.
O beijo dele ia atravessando meu corpo, provando arrepios.
E por mais que estivesse num momento mágico, senti uma vontade gritante de dar risada.
Enterrompi o beijo e entre risadas, perguntei:
"O que foi isso?"
Ele chegou perto do meu rosto, deixando suavemente sua barba roçar na minha bochecha e disse:
" Mistérios são para idiotas"
Me beijou uma segunda vez, agora com a mão esparramada nas minhas costas me apertando contra ele e saiu.
Aquilo parecia um sonho, um daqueles sonhos bons que acabam rápido.
Resolvi continuar meu caminho, brincando, sem perceber, com a moeda furada por entre os dedos.
Os dias passaram, e aquilo não lhe saia da cabeça.
O beijo, o cara, o que ele tinha dito.
Se mistérios são para idiotas, porque ele mesmo fazia tanto mistério.
Será que ele era um grandissíssimo espécime do Home Erectus Idiotis?
Continua...
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