segunda-feira, 2 de abril de 2012

O salto alto

Era tudo uma questão de tamanho. Afinal, eu e meus 1,48 de altura sempre adoramos abusar do salto. Coisa de menina, vá entender.
E apesar de saber que aquele bendito sapato usado hoje, não era daqueles para caminhadas de mais de duas quadras, resolvi colocar porque sou chique, sou baixa e sou.....bem
burra.

Estava tudo indo bem até então..
desci do carro elegante, confiante e bonita..trabalhei o dia todo, em cima do sapato me achando a tal, e até arrisquei a caminhada (de menos de duas quadras) até o almoço, porque eu tava "podendo".

Mas aí, veio o a hora de ir embora e minha história começou..




Peguei uma carona até metade do caminho, e enquanto meus pés descansavam soltos no carro, nem sequer me lembrava que eu os tinha. Mas foi ao descer do carona e me despedir, que começei a praguejar.

Nos primeiros 500 metros, eu sorria discreta, andava de cabeça em pé, segurando minha bolsa e me sentindo moderna, claro..um salto alto te dá essas sensações ilusórias..
Mas foi ao ultrapassar os 700 metros que comecei a me perguntar "Porque?, Porque?"..

Tentei parar no ponto de ônibus e esperar dignamente, enquanto havia alguma dignidade em minha alma, mas a demora só fazia meus pés pulsarem no meu sapato, como se gritassem por socorro para que os tirasse dali.

Mais 500 metros - pensei aflita - vai ser melhor que ficar aqui esperando.
E lá se foram mais 500 metros segurando, equilibrando e andando nas calçadas mais irregulares deste país.
Minha unha do dedão parecia que estava travando uma guerra com a minha pele e todos os outros dedos se espremiam dentro do meu sapato para saber o que ia acontecer.

Novo ponto de ônibus, e o trânsito parado. Aguentei cerca de dois minutos esperando.
Minhas pernas agora tremiam.
Era continuar, ou continuar.

Comecei a rezar, pedir ajuda aos anjos, aos santos..implorei por um milagre, uma carona..e até mesmo um vendaval que me levasse voando embora pra casa, ou pra qualquer lugar.
Agora meus pés inchadinhos dentro do sapato, pareciam explodir.

Novo ponto de ônibus. Parei.
Não havia mais sorriso, mais graça e nem elegância em minha persona.
Eu ficava levantando, hora um e hora o outro pra tentar diminuir a dor.
As pessoas me olhavam estranho, talvez se perguntando - "O que diabos essa menina está fazendo?"
Ignorei as pessoas..e lembrei de uma amiga me contando que quando ele coloca sapatos muito apertados, chega uma hora que a dor para..ou seja que o pé adormece.

Imaginei que se eu conseguisse suportar mais um pouco isso ia acontecer.
Quase desmaiei.
Um ônibus chegou, vacilei e não entrei.
Estava cheio demais.

Sambava pé por pé pra aguentar.
O outro veio meia hora depois, ou um ano depois, não me lembro direito pois já estava com a vista embaçada.
Entrei no ônibus e pensei - Vou sentar, eu preciso sentar!

Uma moça ao meu lado me perguntou como eu estava aguentando aquele salto.
Disse a ela, toda sínica: "Ihhh, tô acostumada"

Me senti estúpida diante daquela mentira, mas era o que me restava pra resguardar minha dignidade.
A moça sorriu triste, e foi embora e eu fiquei em pé me agarrando num espaço de 5 cm.
Um homem se ofereceu pra segurar minha bolsa. Tive vontade de dar-lhe meus pés..mas não podia..
Dei a bolsa..

No caminho jurei a mim mesma que assim que descesse do ônibus eu ia arrancar meu sapato, e ir descalsa até em casa.
Quando chegou no ponto, desci, e esperei fingida todos sairem apressados para sua casas. Me abaixei lentamente e arranquei aquele par de filhos da puta do meu pé.
Estava de meia calça mas, era isso ou nada.Arrancar a meia calça no meio da rua também já demais.




Quando meus pés encostaram no chão, quase caí de prazer.
Foi orgásmico.

Comecei a caminhar pela calçada e depois pelo asfalto..sentindo as pedras castigarem a sola do meu pé e da minha meia que a essa altura estava imprestável.
Achei que eu não fosse aguentar.
Bateu o pânico: e se eu fosse abordada, assaltada..sequestrada?

Diante do ódio que se abatia sobre mim, eu acho que era bem capaz de ser eu a enforcar alguém.
Caminhei até em casa, curvada, sem sorriso, com a maquiagem suada, com a meia rasgada.

Na frente do portão, meus pés vacilavam...eu estava descalça e descabelada.
Quando consegui chegar perto de um lugar onde eu pudesse me sentar, joguei os sapatos de lado.
Juro que imaginei eles correndo porta a fora...

Suspirei aliviada, analisei o estado dos meus pé..
relaxei os ombros tensos ...
quando vi os sapatos encostados no canto, pensei..

" Acho que esse sapato combina com a roupa que vou usar semana que vem...acho que vou usar..só que dessa vez..não mais que dois quarteirões"


Um comentário:

Taís e Paula disse...

Eu resolvi carregar tênis na bolsa pra poder caminhar por aí. Salto só no trabalho.
Beijos da Taís.